O que aprendi com meus assediadores?

Apesar de sempre me sentir muito segura viajando sozinha pelo sudeste asiático (Vietnã, Camboja e Tailândia), recentemente, sofri dois casos de assédio sexual em um espaço de menos de um mês.

Na primeira vez, o segurança da pousada onde estava trabalhando no Camboja subiu na parede do quarto ao lado para me olhar dormir com uma lanterna na minha cara (às 4 da manhã), e, depois ainda bateu na porta perguntando se eu queria trepar. O segundo caso foi em Chiang Mai, Tailândia. Durante uma queda de energia na rua, estava voltando para casa às 7 da noite de bicicleta e um cara passou de moto e começou falar coisas em Thai e passou a mão na minha bunda. Algumas ruas à frente ele voltou a me perseguir falando coisas sem sentido e dizendo que queria trepar… comecei a gritar, mas a rua estava um breu, todos tinham fechado as portas, ele acelerou na minha frente, deu meia volta e estava vindo na minha direção de novo, dei uma guinada na bike e entrei numa lavanderia onde vi alguém com uma lanterna.

            As duas experiências não foram as primeiras, mas o fato de estar em um país de língua desconhecida e viajando sozinha, sem pessoas muito próximas por perto, fez tudo ter uma dimensão maior. Na primeira ocasião, apesar de agora parecer a menos perigosa, fiquei em choque, entrei em pânico, me vi sendo violentada, morta, me senti extremamente vulnerável naquela situação. Na segunda, estava mais em controle. Mas o que fazer? No escuro, sem ninguém na rua, não sei qual era a intenção do cara quando decidiu voltar na minha direção. Nos dois casos, eu mulher independente, esclarecida, feminista, me peguei procurando em mim a culpa pelo acontecido, reproduzindo pensamentos machistas que tanto abomino e combato. Isso me fez refletir sobre as ações dos assediadores e sobre o que eu senti (além disso fiz um spray de pimenta caseiro, que espero não ter que usar) e estou usando as experiências para me entender melhor e me fazer mais forte para enfrentar esses atos doentios, infelizmente tão comuns.

1 – Os assediadores se alimentam do nosso medo

Na segunda ocasião que citei, o cara estava rindo o tempo todo. Ele sabia que eu estava com medo. Esses homens acreditam que somos mais fracas que eles e apostam na nossa insegurança. E realmente me senti insegura, fraca em frente a esses episódios.

Lição: Trabalhar minha mente, para me posicionar frente a situações adversas e não demonstrar medo. Ficar calma, pensar em alternativas.

2 – Não é minha culpa

Não! Nunca! Mas mesmo com meu discurso feminista e me considerando uma mulher livre e independente, me senti culpada sim. Passou pela minha cabeça que de repente eu tivesse feito algo para que aquele segurança aparecesse no meu quarto às quatro da manhã. Ou comecei a pensar no que estava usando quando o cara da moto apareceu, era um macacão folgado comprido e uma camisa por cima do ombro! Talvez se eu estivesse vestindo roupas iguais às das locais… Nessas horas, acho que toda aquela doutrinação pela qual passamos ao longo da vida vem à tona, ainda que conscientemente não acreditemos nisso. E para piorar haverá pessoas que aparecerão com esse discurso: “Mas por que você estava dormindo sem roupa?”, “Viajando sozinha, também…”. Não caia nessa. Presta atenção: NÃO É SUA CULPA! Você pode tomar cuidados? Sim. Mas não se culpe. As pessoas que fazem essas coisas são marginais e não importa se você está pelada, vestida, se é de noite ou de dia, a culpa é deles que não têm respeito por outro ser humano.

Lição: Tomar cuidados visando a segurança, ficar atenta a sinais, mas viver a vida como quiser. Aprender com a intempéries e seguir em frente.

3 – O que você sente é seu

Em nenhum dos casos que já passei sofri violência física, mas no primeiro, como disse senti um pânico que nem sei explicar. E o que eu senti não pode ser minimizado por outros. Só eu sei que senti naqueles minutos em que acordei com uma lanterna na minha cara e não sabia quem era, paralisei, não conseguia me mexer, gritar, nada. Isso é meu, só eu estava lá, e o que eu senti tem a ver com as minhas experiências.

Lição: Não deixe que outros te digam o que você deveria sentir. Use o que sentiu para entender a sua mente. Eu estou tentando meditar e controlar minha mente e entender a minhas fraquezas, para trabalha-las.

4 – Fale a respeito

Não guarde para si. Fale, desabafe. Isso pode te ajudar a perceber que não está sozinha, que outras mulheres já passaram por situação semelhante e pode te ajudar a digerir a experiência. Além do mais, acredito que compartilhando experiências podemos nos fortalecer e lutar contra o machismo e o assédio. E, depois, aprenda com experiência e deixe o passado no passado. Não deixe que esse fantasma atrapalhe seus planos. Não estou falando que é para ignorar. Se for o caso, procure a polícia, faça o que precisar ser feito para o que o assediador seja punido e não prejudique outras mulheres. Mas, faça sua parte e siga em frente. Não se prenda a esse episódio.

Lição: Essa parte é difícil, porque aquela memória vai te acompanhar. Então, tente fazer dela tipo um post-it, um lembrete de verificar se as paredes vão até o teto, se existe uma rua mais movimentada para passar, etc. Mas não deixe que essa lembrança te paralise.

E pra não dizer que é um comportamento dos locais (cambojanos e tailandeses) em relação às estrangeiras, ontem assisti a um vídeo de dois meses atrás, gravado aqui em Chiang Mai, onde um homem branco (europeu ou americano), bonito, jovem, desses que a gente daria bola fácil na balada, falava como se deve ignorar quando as mulheres dizem não, porque isso é um jogo e que quando elas dizem não elas querem dizer sim! E recomendando que se pegue a mulher pela bunda, porque é assim que se faz… Em 2017 meu povo!!!! Não tá fácil!

Tudo isso só serve para me enfatizar que ainda temos muito o que caminhar para um mundo mais justo com as mulheres, para que nós possamos nos sentir seguras sozinhas, para que não tenhamos que nos preocupar se o que estamos vestindo vai servir de desculpa para violência, para que não sintamos culpa por sermos mulheres viajando sozinhas ou simplesmente fazendo nossas atividades diárias sem a companhia de um homem. Basta! Eu viajo sozinha quando eu quiser e não vou parar!

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