Diferentes sim, iguais também!

“Same same, but different”. Essa é uma expressão que você ouve muito no sudeste asiático. Quer dizer que é igual, mas diferente ou, “tipo isso, sabe?!”.

E acho que isso resume um pouco do que estou vivenciando por aqui. Eu sempre falei e pensei que quisesse viajar para descobrir culturas diferentes, ver paisagens exóticas, viver algo fora do normal. E a Ásia me parecia isso. Diferente de tudo! Mas, para minha alegria eu me sinto em casa aqui, sabe por quê? Porque percebi que somos todos iguais, mesmo que com roupas diferentes.

 

Quando você planeja viajar para um lugar distante do seu país, a primeira coisa que vem a mente são as coisas que te falaram ou que você já leu sobre o lugar e que são tão diferentes da sua terra. E você vai, com o olhar de turista, em busca do inusitado, sempre querendo encontrar o exótico. Comigo também foi assim quando decidi vir para a Ásia. Na verdade, a expectativa de tanta diferença até me deu medo, muito medo, devo confessar: “Mas será como eu vou me virar lá, num lugar tão diferente, de pessoas diferentes, comidas diferentes…?”

Chegando ao Vietnam, foi meio que um choque. Num primeiro momento, me senti como num filme, com todos aqueles letreiros que eu não entendia, o transito caótico, os barulhos, cheiro, comida, tudo diferente.

Como fui para Hanói para morar um tempo, logo aquele olhar de turista teve de dar lugar a um olhar do dia a dia, de fazer compras no mercado, tomar café, ir pro trabalho, pegar ônibus. E, passado pouco tempo, já me sentia em casa. E o meu olhar foi mudando, para observar não a diferença, mas para perceber o quão somos iguais. Sim!

Alguns exemplos de como observei isso.

Há uma cultura de cafés muito grande em Hanói. As pessoas querem ir lá, passar um tempo, conversar com amigos, estudar, ler, trabalhar. Igual, certo? Mesmo que os cafés sejam diferentes, com cafés gelados, com côco, com ovo… como as pessoas usam essas lugares é igual.

 

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Essas mulheres que trabalham na limpeza da praça estão tirando uma soneca no horário do almoço. Hanói, Vietnam.

Comida de rua. Tem barraquinha de rua em todo lugar e gente passando gritando (olha a pamonha!). Ok, não é pamonha, mas são sanduíches, frutas, salgadinhos tipo esfirra, frutas.. Cena comum em muito lugar do Brasil.

 

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Em uma madrugada em Ho Chi Minh, esse moto taxista me confidenciou sua desilusão com as mulheres. “Se não tem dinheiro, não há amor”, disse ele.

Crianças brincando com bóia de caminhão na praia no Camboja. Gente, tem coisa mais interior do Brasil do que bóia de caminha no rio? Então.

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Qual a diferença entre essa criança do Camboja e uma na sua vizinhança? Elas só querem brincar e fazer travessuras!

Conheci uma freira de 20 e poucos anos num mosteiro zen budista nas montanhas no Vietnam. Você deve pensar, como ela deve ser super diferente de mim, correto? Ela tinha sido ordenada a pouco mais de um ano. Perguntei porque ela decidiu virar freira tão jovem e se não sentia falta dos amigos, da vida lá fora. E ela me disse, muito certa das sua palavras, que em um dado momento ela se viu trabalhando muito na loja da tia (que queria que ela administrasse o negócio) e que não tinha tempo para fazer as coisas que gostava, não tinha tempo para ela e que percebeu que não queria passar a vida inteira daquele jeito e só poder se dedicar ao que gostasse e viajar, curtir, quando ficasse velha. Alguma diferença com o que você ouve nas rodas de conversas com amigos? Ela me contou que no convento ela tem tempo para meditar para estudar e se especializar para ajudar outras pessoas no futuro. E que agora faz o que gosta e se sente feliz.

Aniversário do Buddha. Super diferente né? Afinal, pouco se fala em budismo no Brasil. Fui na celebração do dia do Buddha em Chiang Mai, norte da Tailândia. Gente, é quermesse de igreja total. Muita comida, procissão, oração no final. É uma grande festa. A religião pode ser diferente, mas as pessoas querem celebrar, fazer alguma penitência, no caso subir um morro de 13km até o templo, querem retribuir as graças que receberam, oferendo comida aos fiéis ao longo do caminho, participar de rituais (no caso, dar a volta no templo 3 vezes com uma flor na mão). Os rituais, as comidas, o nome pode ser diferente, mas a essência é a mesma.

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Essa senhora de azul do meu lado não falava nada de inglês e o meu vietnamita também é zero. Mas rimos e comemos muito juntas nesse dia em Da Lat, Vietnam.

Com esses exemplos, quero dizer que, se você parar pra observar, somos todos muito iguais. Aqui na Ásia, no Brasil, em qualquer lugar, as crianças querem se divertir, as pessoas querem encontrar um propósito na vida e fugir de uma vida sem propósito e só trabalho, querem rir, se conectar com pessoas, celebrar, buscar a espiritualidade, viver de maneira mais plena.

Sim, fazemos isso usando roupas diferentes, uns têm olhos puxados, outros a pele escura, outros têm o cabelo liso e preto, falamos línguas que são incompreensíveis para os outros, mas pare e observe. Veja naquela pessoa não um ser exótico, que merece ser examinado ou questionado sobre o porque se veste assim ou come isso ou aquilo. Converse sobre a vida, o dia a dia, veja nele um amigo e você vai ver que essa pessoa é bem semelhante a você, está fazendo o melhor que pode da vida, buscando respostas, acertando e errando.

Quando você deixa de olhar a realidade como turista e observa e interage com os “locais” como pessoas normais que são, como você, você percebe como essas fronteiras e diferenciações entre pessoas são tão sem sentido e que colocar pessoas em caixas de estereótipos é limitante e fora da realidade. Você é igual aos outros 200 milhões de brasileiros?

Até não muito tempo atrás, umas das primeiras perguntas que eu fazia quando conhecia alguém era: de onde você é? Aí eu colocava aquela pessoa numa caixinha daquela nacionalidade. Essa informação direcionava o resto da conversa e me ajudava a fazer perguntas com base nos conceitos e informações que eu já tinha a respeito das pessoas daquele lugar. Hoje, muitas vezes eu até esqueço de perguntar de qual país a pessoa é, porque tem tanta coisa pra conversar e essa informação muitas vezes não é relevante.

Somos seres humanos, nossa nacionalidade não nos define.

 

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